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Oncologia / Artigos

Aspectos Clínicos e Diagnósticos dos Tumores de Cabeça e Pescoço

Os tumores de cabeça e pescoço constituem um grupo heterogêneo de neoplasias que se originam no revestimento epitelial da mucosa das vias aéreas e digestivas superiores, englobando a cavidade oral, orofaringe, laringe, hipofaringe, cavidade nasal e seios paranasais1. Em conjunto, representam a sétima neoplasia mais comum no mundo, configurando um relevante problema de saúde pública em razão de sua elevada incidência, impacto funcional e associação com morbidade e mortalidade significativas2. Aproximadamente 90% desses tumores correspondem a carcinomas de células escamosas1. No Brasil, a carga da doença é expressiva: em 2020, foram registrados 6.192 óbitos por câncer da cavidade oral, correspondendo a um risco de morte de 2,92 por 100 mil habitantes3.

Os fatores de risco variam conforme o sítio anatômico e refletem a complexidade biológica desses tumores. Globalmente, o tabagismo e o consumo excessivo de álcool permanecem como os principais determinantes etiológicos, com efeito sinérgico bem estabelecido3. Em países da Europa e nos Estados Unidos, observa-se mudança no perfil epidemiológico, com aumento da proporção de tumores de orofaringe associados à infecção pelo papilomavírus humano (HPV), responsável por 60% a 70% dos casos nessa localização, condição que também influencia o prognóstico1. Outros fatores, como obesidade, baixo consumo de frutas e vegetais, associam-se ao risco aumentado de câncer de boca e faringe, enquanto a exposição solar crônica sem proteção constitui o principal fator etiológico do câncer de lábio. Diante desse cenário, a estratégia de controle do câncer de boca recomendada no Brasil fundamenta-se no diagnóstico precoce de lesões suspeitas3. Nesse contexto, o reconhecimento dos fatores de risco e das apresentações clínicas iniciais assume papel central para reduzir atrasos diagnósticos e otimizar os desfechos dos pacientes.

O diagnóstico dos carcinomas de células escamosas de cabeça e pescoço baseia-se no reconhecimento precoce de sinais e sintomas sugestivos, seguido de avaliação clínica e confirmação histopatológica. Dor persistente na garganta, rouquidão crônica, lesões dolorosas ou não cicatrizantes na língua ou na cavidade oral, placas eritroplásicas ou leucoplásicas, disfagia ou odinofagia e massas cervicais sugerem investigação dirigida, sobretudo em indivíduos com fatores de risco. A confirmação patológica é mandatória e constitui o padrão-ouro diagnóstico. Lesões da cavidade oral podem ser biopsiadas por via transoral sob anestesia local, enquanto tumores da faringe e da laringe são, com frequência, avaliados por via endoscópica sob anestesia geral, permitindo melhor caracterização da lesão primária4.

A abordagem inicial inclui exame físico completo da cabeça e pescoço, associado a métodos de imagem para avaliação locorregional, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética. A investigação de doença à distância pode ser realizada com tomografia de tórax ou PET-CT em casos selecionados. A avaliação odontológica integra rotineiramente o estadiamento inicial. Avaliações complementares da função da fala e deglutição, do estado nutricional e de aspectos psicossociais podem ser incorporadas conforme o contexto clínico, contribuindo para uma abordagem inicial abrangente4.

O estadiamento dos carcinomas de células escamosas de cabeça e pescoço baseia-se no sistema TNM (tumor, linfonodos e metástases), sendo específico para cada sítio anatômico. De forma geral, os estadiamentos iniciais (I e II) correspondem a tumores menores, restritos ao sítio primário e sem envolvimento linfonodal significativo, enquanto os estadiamentos avançados (III e IV) caracterizam-se por doença localmente avançada, invasão de estruturas adjacentes, maior comprometimento linfonodal e, no estádio IV, pela presença de metástases à distância. O estadiamento adequado é determinante para a definição da estratégia terapêutica e para a estimativa prognóstica2.

A avaliação anatomopatológica dos espécimes cirúrgicos é central para o estadiamento patológico e para a definição prognóstica. Devem ser descritos o tamanho tumoral, o padrão de crescimento, a profundidade de invasão — particularmente nos tumores da cavidade oral —, o número e a localização dos linfonodos acometidos, a presença de extensão extracapsular, invasão perineural e linfática, bem como o status das margens cirúrgicas, parâmetros fundamentais para a indicação de tratamento adjuvante. Em casos de doença recorrente ou metastática, a avaliação da expressão de PD-L1 por testes validados auxilia na definição da estratégia terapêutica de primeira linha, sendo o Combined Positive Score (CPS) amplamente utilizado. Apesar dos avanços no conhecimento da biologia molecular desses tumores, o manejo clínico permanece baseado predominantemente no estadiamento clínico-patológico, e não em alterações genômicas ou perfis de expressão gênica4.

O tratamento dos carcinomas de células escamosas de cabeça e pescoço deve ser definido por equipe multidisciplinar, considerando o estadiamento da doença, o sítio anatômico e a ressecabilidade tumoral. A abordagem terapêutica integra cirurgia, radioterapia e tratamento sistêmico, com ênfase no controle da doença, preservação funcional e redução da morbidade. O cuidado multiprofissional, com suporte odontológico, nutricional, fonoaudiológico e psicossocial, é fundamental para a manutenção da qualidade de vida em longo prazo2.

Em resumo, a abordagem dos tumores de cabeça e pescoço envolve estratégias de prevenção, reconhecimento clínico oportuno e condução adequada conforme o contexto individual de cada paciente. A identificação precoce de sinais e sintomas sugestivos, particularmente em indivíduos expostos a fatores de risco, permanece fundamental. O conhecimento dos princípios diagnósticos, prognósticos e terapêuticos contribui para reduzir atrasos no diagnóstico e orientar decisões clínicas mais consistentes ao longo do cuidado.

Referências:

  1. Dunn L, Ho A, Pfister David. Head and Neck Cancer A Review. JAMA. 2025 Dec;
  2. Chow LQM. Head and Neck Cancer. Longo DL, editor. New England Journal of Medicine [Internet]. 2020 Jan 2;382(1):60–72. Available from: http://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMra1715715
  3. Ministério da Saúde Instituto Nacional de Câncer, Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2023 | Incidência de Câncer no Brasil. 2023.
  4. Machiels JP, René Leemans C, Golusinski W, Grau C, Licitra L, Gregoire V. Squamous cell carcinoma of the oral cavity, larynx, oropharynx and hypopharynx: EHNS–ESMO–ESTRO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up†. Annals of Oncology. 2020 Nov 1;31(11):1462–75.