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Avaliação e estratificação de risco cardiovascular na Atenção Primária

As doenças cardiovasculares (DCV) configuram a principal causa de morte no mundo e estão entre as principais causas de incapacidade e anos de vida perdidos, com importante impacto social, econômico e na qualidade de vida da população. Segundo dados do Global Burden of Disease, o número de óbitos por DCV aumentou de 12,1 milhões em 1990 para 18,6 milhões em 2019. No Brasil, no mesmo período, a taxa de mortalidade por DCV também apresentou crescimento, passando de 181,22 para 183,69 óbitos por 100 mil habitantes, com valores mais elevados entre indivíduos acima de 50 anos. Diante desse cenário, a Atenção Primária à Saúde (APS) ocupa posição estratégica, por ser o nível de cuidado em que grande parte dos fatores de risco cardiovascular pode ser identificada, acompanhada e modificada antes da ocorrência de eventos como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) ou insuficiência cardíaca.1

No Brasil, esse tema ganhou ainda mais relevância com a Estratégia de Saúde Cardiovascular na APS, instituída pelo Ministério da Saúde para qualificar ações de prevenção, controle e cuidado integral às pessoas com doenças cardiovasculares e seus fatores de risco. A iniciativa destaca hipertensão arterial, diabetes, obesidade, tabagismo, inatividade física, alimentação inadequada, consumo de álcool e idade acima de 60 anos entre os principais fatores associados à carga cardiovascular no país. Também reforça a necessidade de rastreamento, estratificação de risco, diagnóstico precoce e organização dos processos de cuidado na APS. Nesse contexto, a avaliação do risco cardiovascular se insere em uma lógica mais ampla de planejamento e qualificação da assistência, que envolve desde a análise situacional do território até o monitoramento e os ajustes contínuos das ações implementadas.1

Passos para apoio à implementação das Ações Estratégicas da ECV

Figura 1: Passos para apoio à implementação das ações estratégicas da Estratégia de Saúde Cardiovascular na APS. Adaptado de: Ministério da Saúde. Estratégia de Saúde Cardiovascular na Atenção Primária à Saúde: instrutivo para profissionais e gestores. Brasília: Ministério da Saúde; 2022.1
O conceito de risco cardiovascular global parte de uma premissa simples: o risco não é determinado por um único marcador. Ele corresponde à estimativa da probabilidade de um indivíduo desenvolver doença cardiovascular em determinado período, considerando a combinação de fatores clínicos e comportamentais. Na APS, essa avaliação pode integrar variáveis como idade, sexo, tabagismo, hipertensão arterial, presença ou ausência de diabetes, colesterol total e índice de massa corporal, além de determinantes sociais que interferem no acesso, na adesão e na continuidade do cuidado.1

Na prática da APS, o paciente de maior risco costuma ser aquele que concentra múltiplos fatores ou já apresenta sinais de lesão de órgão-alvo. Entram nesse grupo pessoas com doença cardiovascular estabelecida, diabetes associado a outros fatores de risco, doença renal crônica, hipertensão de difícil controle, dislipidemias importantes, tabagismo persistente, obesidade central e baixa adesão ao acompanhamento. A vulnerabilidade social também deve ser considerada, pois pode dificultar alimentação adequada, prática de atividade física, aquisição regular de medicamentos e comparecimento às consultas.1

Com esse perfil em mente, a avaliação do risco cardiovascular deve funcionar como uma ponte entre a identificação dos fatores de risco e a definição do cuidado. Ao estimar a probabilidade de um indivíduo desenvolver doença cardiovascular em determinado período, a equipe consegue reconhecer quem está mais vulnerável a eventos como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico, além de orientar estratégias preventivas, diagnóstico precoce e tratamento oportuno. Ferramentas como a calculadora HEARTS podem apoiar essa decisão por reunirem variáveis clínicas e laboratoriais ou, quando necessário, não laboratoriais, favorecendo sua aplicação em diferentes realidades da APS.1

Essa estimativa ganha valor quando é traduzida em prioridade clínica. Categorias como baixo, intermediário, alto e muito alto risco ajudam a dimensionar a intensidade do cuidado e a evitar que pacientes com maior probabilidade de complicações sejam acompanhados da mesma forma que aqueles com menor risco. Em alguns casos, a própria condição clínica já sinaliza maior gravidade, como ocorre em pessoas com doença coronariana, AVC isquêmico, ataque isquêmico transitório ou insuficiência vascular periférica. Nesses pacientes, o registro adequado em prontuário e o planejamento do cuidado são mais importantes do que repetir o cálculo de um escore.1,2

A principal implicação dessa classificação está na possibilidade de antecipar intervenções antes do primeiro evento cardiovascular. Em pacientes sem doença estabelecida, a estratificação orienta a prevenção primária ao indicar quem precisa de aconselhamento mais estruturado, controle mais rigoroso dos fatores modificáveis e, quando indicado, tratamento farmacológico. Já nos pacientes de maior risco, a mesma lógica permite intensificar o acompanhamento e reduzir a inércia terapêutica, sempre considerando o controle pressórico e glicêmico, a adesão ao tratamento e a redução de complicações, internações e mortalidade por DCV.1,2

Para que a estratificação se traduza em cuidado efetivo, o risco estimado não deve ser interpretado de forma isolada. A conduta precisa considerar fatores clínicos, comorbidades, adesão, vulnerabilidades sociais, acesso ao cuidado e preferências do paciente, orientando uma decisão individualizada que combine mudanças no estilo de vida, educação em saúde, autocuidado, acompanhamento multiprofissional e tratamento conforme a necessidade de cada pessoa. Ao mesmo tempo, a avaliação do risco cardiovascular ajuda a definir parâmetros assistenciais, periodicidade de acompanhamento e orientação terapêutica mais precisa, desde que acompanhada de registro em prontuário, monitoramento contínuo e reavaliação periódica. Dessa forma, a estratificação apoia a organização do cuidado na APS e contribui para a prevenção de eventos cardiovasculares fatais e não fatais.1,2

Referências Bibliográficas:

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Estratégia de Saúde Cardiovascular na Atenção Primária à Saúde [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; [citado 2026 jun 18]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/ecv/publicacoe. Acesso em: 01 Jun. 2026
  2. Précoma DB, Oliveira GMM, Simão AF, Dutra OP, Coelho OR, Izar MCO, et al. Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(4):787-891. doi:10.5935/abc.20190204.