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Adesão ao tratamento como pilar do desfecho clínico na atenção primária
Na Atenção Primária à Saúde (APS), muitos desfechos clínicos não dependem apenas de uma hipótese diagnóstica ou da escolha adequada de um medicamento. Em condições acompanhadas diariamente, como hipertensão, diabetes, dislipidemias, asma, doença pulmonar obstrutiva crônica e transtornos mentais comuns, o cuidado se constrói ao longo do tempo. Entre a prescrição registrada na consulta e a melhora sustentada meses depois, há um percurso marcado pela rotina, por dúvidas, acesso aos serviços, limitações sociais, medicamentos, possibilidade de retorno e vínculo com a equipe.1-3
Nesse percurso, a adesão ao tratamento torna-se um componente central do desfecho clínico. Aderir não significa apenas “tomar o remédio”, mas usar corretamente as medicações, manter acompanhamento longitudinal, seguir orientações clínicas, realizar exames quando indicados e adaptar recomendações à vida real. A Organização Mundial da Saúde define adesão como o grau em que o comportamento da pessoa corresponde às recomendações acordadas com o profissional de saúde, incluindo medicamentos, dieta e mudanças de hábitos. Assim, uma orientação adequada pode falhar quando não cabe na rotina do paciente. Por isso, a adesão precisa ser compreendida como resultado de múltiplas dimensões, relacionadas ao paciente, ao tratamento, à condição clínica, ao sistema de saúde e ao contexto socioeconômico e não como uma responsabilidade individual isolada. Também deve fazer parte do raciocínio médico desde o início, considerando compreensão do tratamento, horários possíveis, acesso aos medicamentos, apoio familiar e condições concretas para executar o plano, evitando que barreiras cotidianas prejudiquem o controle clínico tanto quanto uma escolha terapêutica inadequada.1,4,5
Nesse percurso, a adesão ao tratamento torna-se um componente central do desfecho clínico. Aderir não significa apenas “tomar o remédio”, mas usar corretamente as medicações, manter acompanhamento longitudinal, seguir orientações clínicas, realizar exames quando indicados e adaptar recomendações à vida real. A Organização Mundial da Saúde define adesão como o grau em que o comportamento da pessoa corresponde às recomendações acordadas com o profissional de saúde, incluindo medicamentos, dieta e mudanças de hábitos. Assim, uma orientação adequada pode falhar quando não cabe na rotina do paciente. Por isso, a adesão precisa ser compreendida como resultado de múltiplas dimensões, relacionadas ao paciente, ao tratamento, à condição clínica, ao sistema de saúde e ao contexto socioeconômico e não como uma responsabilidade individual isolada. Também deve fazer parte do raciocínio médico desde o início, considerando compreensão do tratamento, horários possíveis, acesso aos medicamentos, apoio familiar e condições concretas para executar o plano, evitando que barreiras cotidianas prejudiquem o controle clínico tanto quanto uma escolha terapêutica inadequada.1,4,5
As cinco dimensões da adesão
Figura 1: As cinco dimensões que integram a adesão. Adaptado de: WHO., 20034
A literatura recente reforça que a adesão terapêutica influencia resultados clínicos, custos em saúde e qualidade de vida, destacam que a baixa adesão se associa a pior controle de doenças crônicas, maior risco de progressão, complicações, hospitalizações e aumento de custos. No sentido oposto, melhor adesão favorece controle clínico, redução de complicações e melhora da qualidade de vida. Em doenças crônicas, portanto, não basta indicar uma intervenção eficaz. É necessário criar condições para que ela seja compreendida, aceita, mantida e revisada quando necessário.1
Um equívoco frequente é atribuir a baixa adesão exclusivamente ao paciente. Essa interpretação reduz um problema que costuma ser multifatorial. O paciente pode não aderir porque não entendeu a prescrição, porque o esquema é complexo, porque teme efeitos adversos, porque não percebe sintomas, porque não consegue retirar o medicamento ou porque o plano não dialoga com sua rotina de trabalho, alimentação, renda ou rede de apoio. O NICE reforça que a não adesão não deve ser vista apenas como “problema do paciente”, mas também como limitação do cuidado quando não há acordo real sobre a prescrição ou suporte suficiente para sustentá-la.1,5
O médico influencia diretamente a construção da adesão, desde a comunicação do diagnóstico até a clareza da prescrição, a explicação do objetivo do tratamento, a escuta de dúvidas, medos e preferências e a revisão contínua do plano. Uma prescrição simples, com linguagem acessível e horários compatíveis com a rotina, tende a ser mais viável do que um esquema ideal no papel, mas difícil de manter. Por outro lado, prescrições complexas ou pouco realistas, comunicação excessivamente técnica, ausência de checagem de entendimento, pouca investigação de barreiras sociais e falta de revisão nas consultas seguintes podem comprometer o tratamento. Por isso, é essencial confirmar se o paciente compreendeu o plano. Perguntar “entendeu?” raramente basta. Estratégias como o teach-back, descrito pela Agency for Healthcare Research and Quality, ajudam ao pedir que o paciente explique, com suas próprias palavras, o que fará em casa. Isso permite verificar se a orientação foi clara e corrigir dúvidas antes que prejudiquem o cuidado. Da mesma forma, se o paciente faltou, não retirou o medicamento, suspendeu por efeito adverso ou não realizou exame, é preciso compreender o motivo antes de concluir desinteresse. A pergunta deve ser “o que, no plano proposto, dificultou que ele fizesse?”.1,5,6
A longitudinalidade da APS permite que médico e equipe conheçam melhor a vida do paciente: com quem mora, como se alimenta, se trabalha em turnos, se consegue buscar medicamentos, se depende de cuidador, se apresenta sintomas depressivos ou se tem dificuldade para ler uma receita. Essas informações qualificam a decisão clínica e ajudam a ajustar o plano terapêutico. Em alguns casos, a melhor conduta não é acrescentar mais uma recomendação, mas reorganizar prioridades, envolver familiares, acionar a equipe multiprofissional ou programar retornos mais próximos.2,3
Na Atenção Primária, o tratamento mais eficaz não é apenas aquele que está nas diretrizes. É aquele que consegue caber na vida. A adesão conecta decisão clínica e resultado clínico; por isso, deve ser compreendida como responsabilidade compartilhada, construída ao longo do cuidado. O médico não controla todos os determinantes, mas pode reduzir barreiras por meio de comunicação clara, prescrição realista, escuta qualificada, vínculo longitudinal e reavaliação contínua. Quando isso ocorre, a prescrição deixa de ser apenas uma orientação registrada no prontuário e passa a se transformar em cuidado real.1-6
Um equívoco frequente é atribuir a baixa adesão exclusivamente ao paciente. Essa interpretação reduz um problema que costuma ser multifatorial. O paciente pode não aderir porque não entendeu a prescrição, porque o esquema é complexo, porque teme efeitos adversos, porque não percebe sintomas, porque não consegue retirar o medicamento ou porque o plano não dialoga com sua rotina de trabalho, alimentação, renda ou rede de apoio. O NICE reforça que a não adesão não deve ser vista apenas como “problema do paciente”, mas também como limitação do cuidado quando não há acordo real sobre a prescrição ou suporte suficiente para sustentá-la.1,5
O médico influencia diretamente a construção da adesão, desde a comunicação do diagnóstico até a clareza da prescrição, a explicação do objetivo do tratamento, a escuta de dúvidas, medos e preferências e a revisão contínua do plano. Uma prescrição simples, com linguagem acessível e horários compatíveis com a rotina, tende a ser mais viável do que um esquema ideal no papel, mas difícil de manter. Por outro lado, prescrições complexas ou pouco realistas, comunicação excessivamente técnica, ausência de checagem de entendimento, pouca investigação de barreiras sociais e falta de revisão nas consultas seguintes podem comprometer o tratamento. Por isso, é essencial confirmar se o paciente compreendeu o plano. Perguntar “entendeu?” raramente basta. Estratégias como o teach-back, descrito pela Agency for Healthcare Research and Quality, ajudam ao pedir que o paciente explique, com suas próprias palavras, o que fará em casa. Isso permite verificar se a orientação foi clara e corrigir dúvidas antes que prejudiquem o cuidado. Da mesma forma, se o paciente faltou, não retirou o medicamento, suspendeu por efeito adverso ou não realizou exame, é preciso compreender o motivo antes de concluir desinteresse. A pergunta deve ser “o que, no plano proposto, dificultou que ele fizesse?”.1,5,6
A longitudinalidade da APS permite que médico e equipe conheçam melhor a vida do paciente: com quem mora, como se alimenta, se trabalha em turnos, se consegue buscar medicamentos, se depende de cuidador, se apresenta sintomas depressivos ou se tem dificuldade para ler uma receita. Essas informações qualificam a decisão clínica e ajudam a ajustar o plano terapêutico. Em alguns casos, a melhor conduta não é acrescentar mais uma recomendação, mas reorganizar prioridades, envolver familiares, acionar a equipe multiprofissional ou programar retornos mais próximos.2,3
Na Atenção Primária, o tratamento mais eficaz não é apenas aquele que está nas diretrizes. É aquele que consegue caber na vida. A adesão conecta decisão clínica e resultado clínico; por isso, deve ser compreendida como responsabilidade compartilhada, construída ao longo do cuidado. O médico não controla todos os determinantes, mas pode reduzir barreiras por meio de comunicação clara, prescrição realista, escuta qualificada, vínculo longitudinal e reavaliação contínua. Quando isso ocorre, a prescrição deixa de ser apenas uma orientação registrada no prontuário e passa a se transformar em cuidado real.1-6
Referências Bibliográficas:
- Religioni U, Barrios-Rodríguez R, Requena P, Borowska M, Ostrowski J. Enhancing Therapy Adherence: Impact on Clinical Outcomes, Healthcare Costs, and Patient Quality of Life. Medicina (Kaunas). 2025 Jan 17;61(1):153. doi: 10.3390/medicina61010153. PMID: 39859135; PMCID: PMC11766829.
- Brasil. Ministério da Saúde. Atenção Primária [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps. Acesso em: 04 Jul. 2026.
- Almeida , M. ., Claunara Schilling Mendonça, Renato Tasca, & Sandro Rogério Rodrigues Batista. (2026). Atenção Primária à Saúde e Atenção Especializada no SUS: Reflexões para uma Integração Assistencial Oportuna, Efetiva e Centrada no Usuário. APS EM REVISTA, 8(1), 434–446. https://doi.org/10.14295/aps.v8i1.428
- WHO. Adherence to long-term therapies: evidence for action [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2003; Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/42682. Acesso em: 04 Jul. 2026.
- NICE. Medicines adherence: involving patients in decisions about prescribed medicines and supporting adherence. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg76. Acesso em: 04 Jul. 2026.
- AHRQ. Health Literacy Universal Precautions Toolkit, 3rd Edition. Use the Teach-Back Method: Tool 5. Disponível em: https://www.ahrq.gov/health-literacy/improve/precautions/tool5.html. Acesso em: 04 Jul. 2026