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Rastreamento de neoplasias prevalentes no contexto da Atenção Primária
O câncer representa uma das principais causas de morbimortalidade no mundo e constitui um desafio para os sistemas de saúde. No Brasil, para o triênio 2023–2025, estimou-se ocorrência de 704 mil novos casos por ano. Entre as neoplasias mais incidentes destacaram-se os cânceres de mama (73 mil casos anuais), próstata (71 mil), colorretal (45 mil), pulmão (32 mil), e colo do útero (17 mil)1. A estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta cerca de 781 mil novos casos anuais para o triênio 2026-2028, evidenciando a crescente carga da doença e reforçando a necessidade de fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS), como porta de entrada para o rastreamento, o diagnóstico precoce e a coordenação do cuidado oncológico2. Nesse contexto, a APS integra ações de promoção da saúde, prevenção, rastreamento, detecção precoce e coordenação do cuidado. Por meio do acompanhamento longitudinal da população, favorece a identificação de fatores de risco, a adoção de hábitos saudáveis, a vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), a cessação do tabagismo, amplia o acesso aos programas de rastreamento e o reconhecimento de sinais e sintomas3-5. Estratégias como educação em saúde, busca ativa e sistemas de lembretes aumentam a adesão ao rastreamento dos cânceres de mama, colo do útero e colorretal6. Na prática, cabe ao médico da APS implementar as diretrizes nacionais de rastreamento, solicitar exames, identificar casos suspeitos e garantir o encaminhamento e seguimento adequado em colaboração com especialista7.
No câncer de mama, o Ministério da Saúde e o INCA recomendam mamografia bienal para mulheres de 50 a 69 anos com risco habitual8, enquanto outras sociedades médicas recomendam o início aos 40 anos, refletindo diferenças na interpretação das evidências e no equilíbrio entre benefícios e riscos. Mulheres com história familiar sugestiva de síndrome hereditária ou variantes patogênicas em BRCA1/BRCA2 constituem grupo de alto risco e devem ser encaminhadas para avaliação especializada, com definição da estratégia de rastreamento9.
Para o câncer de próstata, o INCA não recomenda o rastreamento populacional com o antígeno prostático específico (PSA). A U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) preconiza decisão compartilhada para homens entre 55 e 69 anos e desaconselha o rastreamento a partir dos 70 anos10. O aumento da incidência de doença metastática ao diagnóstico reacendeu o debate sobre estratégias individualizadas11. Assim, a indicação do PSA deve considerar idade, expectativa de vida, fatores de risco, como história familiar e decisão compartilhada com o paciente sobre os potenciais benefícios e riscos12.
No câncer colorretal, o rastreamento permite identificar tanto tumores iniciais quanto lesões precursoras, reduzindo incidência e mortalidade. O teste imunológico fecal (FIT) e a colonoscopia são as principais estratégias para indivíduos de risco habitual13,14. Ambos os métodos são eficazes na detecção precoce, sendo o FIT associado a maior adesão da população aos programas de rastreamento14. Resultados positivos no FIT devem ser seguidos de colonoscopia para confirmação diagnóstica e manejo adequado, idealmente dentro de 3 a 6 meses, reforçando a importância da coordenação do cuidado pela APS15.
Para o câncer de pulmão, os estudos NLST e NELSON demonstraram redução da mortalidade com a tomografia computadorizada de baixa dose em indivíduos de alto risco16,17. A USPSTF recomenda o rastreamento para adultos de 50 a 80 anos com histórico de pelo menos 20 maços-ano, fumantes atuais ou que cessaram o tabagismo18. Embora essa estratégia ainda não esteja incorporada de forma organizada ao SUS, a APS deve identificar os indivíduos elegíveis, orientar sobre os critérios para rastreamento e reforçar as medidas de cessação do tabagismo.
O câncer do colo do útero é uma das neoplasias com maior potencial de prevenção, resultado da combinação entre vacinação contra o HPV, rastreamento e tratamento das lesões precursoras4. No Brasil, a incorporação progressiva do teste molecular para HPV representa importante avanço por oferecer maior sensibilidade para detecção dessas lesões e favorecer a organização do rastreamento da população elegível19. A APS desempenha papel fundamental no acompanhamento das mulheres com resultados alterados, garantindo investigação e tratamento oportunos.
Apesar das particularidades de cada neoplasia, a efetividade do rastreamento depende da adoção de princípios comuns na APS: identificar a população elegível e os grupos de maior risco, orientar sobre benefícios e limitações dos exames, promover adesão, acompanhar resultados e organizar a investigação das alterações encontradas. Como sintetizado na Figura 1, essa atuação se estende da seleção de quem deve ser rastreado ao encaminhamento para confirmação diagnóstica e tratamento, evitando a perda de diagnósticos oportunos, sobrediagnóstico e a realização de exames desnecessários.
No câncer de mama, o Ministério da Saúde e o INCA recomendam mamografia bienal para mulheres de 50 a 69 anos com risco habitual8, enquanto outras sociedades médicas recomendam o início aos 40 anos, refletindo diferenças na interpretação das evidências e no equilíbrio entre benefícios e riscos. Mulheres com história familiar sugestiva de síndrome hereditária ou variantes patogênicas em BRCA1/BRCA2 constituem grupo de alto risco e devem ser encaminhadas para avaliação especializada, com definição da estratégia de rastreamento9.
Para o câncer de próstata, o INCA não recomenda o rastreamento populacional com o antígeno prostático específico (PSA). A U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) preconiza decisão compartilhada para homens entre 55 e 69 anos e desaconselha o rastreamento a partir dos 70 anos10. O aumento da incidência de doença metastática ao diagnóstico reacendeu o debate sobre estratégias individualizadas11. Assim, a indicação do PSA deve considerar idade, expectativa de vida, fatores de risco, como história familiar e decisão compartilhada com o paciente sobre os potenciais benefícios e riscos12.
No câncer colorretal, o rastreamento permite identificar tanto tumores iniciais quanto lesões precursoras, reduzindo incidência e mortalidade. O teste imunológico fecal (FIT) e a colonoscopia são as principais estratégias para indivíduos de risco habitual13,14. Ambos os métodos são eficazes na detecção precoce, sendo o FIT associado a maior adesão da população aos programas de rastreamento14. Resultados positivos no FIT devem ser seguidos de colonoscopia para confirmação diagnóstica e manejo adequado, idealmente dentro de 3 a 6 meses, reforçando a importância da coordenação do cuidado pela APS15.
Para o câncer de pulmão, os estudos NLST e NELSON demonstraram redução da mortalidade com a tomografia computadorizada de baixa dose em indivíduos de alto risco16,17. A USPSTF recomenda o rastreamento para adultos de 50 a 80 anos com histórico de pelo menos 20 maços-ano, fumantes atuais ou que cessaram o tabagismo18. Embora essa estratégia ainda não esteja incorporada de forma organizada ao SUS, a APS deve identificar os indivíduos elegíveis, orientar sobre os critérios para rastreamento e reforçar as medidas de cessação do tabagismo.
O câncer do colo do útero é uma das neoplasias com maior potencial de prevenção, resultado da combinação entre vacinação contra o HPV, rastreamento e tratamento das lesões precursoras4. No Brasil, a incorporação progressiva do teste molecular para HPV representa importante avanço por oferecer maior sensibilidade para detecção dessas lesões e favorecer a organização do rastreamento da população elegível19. A APS desempenha papel fundamental no acompanhamento das mulheres com resultados alterados, garantindo investigação e tratamento oportunos.
Apesar das particularidades de cada neoplasia, a efetividade do rastreamento depende da adoção de princípios comuns na APS: identificar a população elegível e os grupos de maior risco, orientar sobre benefícios e limitações dos exames, promover adesão, acompanhar resultados e organizar a investigação das alterações encontradas. Como sintetizado na Figura 1, essa atuação se estende da seleção de quem deve ser rastreado ao encaminhamento para confirmação diagnóstica e tratamento, evitando a perda de diagnósticos oportunos, sobrediagnóstico e a realização de exames desnecessários.
Figura 1: Fluxo para rastreamento das neoplasias prevalentes no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS). Síntese das principais etapas do rastreamento e das recomendações para os cânceres de mama, próstata, colorretal, pulmão e colo do útero.
A efetividade do rastreamento depende não apenas da identificação precoce dos indivíduos elegíveis, mas também da organização da linha de cuidado após um resultado alterado (Figura 1). No Brasil, a jornada do paciente com suspeita de câncer inicia-se, na maioria das vezes, na APS e envolve investigação diagnóstica, confirmação histopatológica, estadiamento, tratamento especializado e acompanhamento compartilhado entre os diferentes níveis de atenção. Entretanto, dificuldades de acesso a exames e serviços especializados podem prolongar esse percurso. Nesse contexto, a APS exerce papel estratégico ao coordenar o cuidado, reduzir perdas de seguimento e favorecer o acesso oportuno ao diagnóstico e tratamento, conforme preconizado pela Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer e pela Lei nº 12.732/2012, que estabelece o início do tratamento oncológico em até 60 dias após a confirmação diagnóstica20. O médico da APS deve assegurar que cada etapa dessa jornada seja concluída, reduzindo atrasos diagnósticos e garantindo a continuidade do cuidado.
Diante do aumento da carga do câncer, programas de rastreamento organizados e baseados em evidências são essenciais. Capacitar os profissionais da APS para selecionar quem deve ser rastreado, escolher os exames adequados, interpretar os resultados e conduzir o seguimento fortalece uma linha de cuidado mais segura, equitativa e centrada nas necessidades da população. Ao integrar prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce e coordenação do cuidado, a APS contribui diretamente para aumentar a detecção de câncer em estágios iniciais, reduzir a mortalidade e melhorar os desfechos dos pacientes21.
Diante do aumento da carga do câncer, programas de rastreamento organizados e baseados em evidências são essenciais. Capacitar os profissionais da APS para selecionar quem deve ser rastreado, escolher os exames adequados, interpretar os resultados e conduzir o seguimento fortalece uma linha de cuidado mais segura, equitativa e centrada nas necessidades da população. Ao integrar prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce e coordenação do cuidado, a APS contribui diretamente para aumentar a detecção de câncer em estágios iniciais, reduzir a mortalidade e melhorar os desfechos dos pacientes21.
Referências:
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- Martins LFL, Chaves GV, Oliveira JFP, Souza LBL de, Chagas Neto P, Carvalho FN de, Vasconcelos GM de, Dias MBK, Mello MS de C. Perfil Epidemiológico da Incidência de Câncer no Brasil e Regiões: Estimativas para o Triênio 2026-2028. Rev Bras Cancerol [Internet]. 2026 [citado 2026 jul 10];72(2):e-025587. Disponível em: https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/5587
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