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Pronto-Socorro e UTI / Artigos

Atenção à saúde da pessoa idosa na Atenção Primária

Cuidar da pessoa idosa na Atenção Primária exige reconhecer que o envelhecimento modifica a forma de adoecer e responder aos tratamentos. A consulta não deve ser conduzida como a de um adulto jovem com uma queixa isolada. Muitas vezes, o médico encontra multimorbidade, polifarmácia, fragilidade, sintomas depressivos, risco de quedas, limitações funcionais, dependência de familiares e barreiras na rede. Quando a assistência é fragmentada, aumentam as chances de interações medicamentosas, duplicidade de condutas, hospitalizações evitáveis e piora da experiência.1,2

A multimorbidade é uma das marcas desse cuidado. A coexistência de duas ou mais doenças crônicas aumenta com a idade e está associada a piores desfechos. Quando condições físicas se combinam a transtornos mentais, como depressão, o manejo se torna mais complexo, pois o modelo centrado em uma doença por vez não responde às necessidades do paciente. No estudo de Batista e colaboradores, a prevalência de multimorbidade mental-física em idosos brasileiros foi de 12,2%, com maior utilização de serviços de saúde. Esse idoso que retorna muitas vezes à unidade, passa por diferentes profissionais e acumula prescrições deve ser visto como alguém em risco, não apenas como usuário “frequente”.3

Essa maior procura por atendimento pode trazer consequências quando não há coordenação. Pessoas idosas com multimorbidade têm maior risco de complicações relacionadas à assistência inadequada, e a falta de comunicação favorece condutas duplicadas, orientações contraditórias e fragmentação do cuidado. No estudo brasileiro, uma fonte regular de atenção primária ajudou a organizar o acompanhamento. Houve menor ocorrência de hospitalização anual entre idosos com multimorbidade mental-física que tinham essa fonte regular de cuidado e não possuíam plano privado, mostrando o impacto do vínculo e do seguimento.3

Um dos pontos mais sensíveis da consulta é a polifarmácia, comum entre idosos com doenças crônicas, sintomas persistentes e prescrições de diferentes especialistas. O problema não está apenas no número de medicamentos, mas na combinação entre doses, horários, duplicidades, interações e baixa compreensão do tratamento. Regimes complexos, excesso de medicamentos, tratamentos prolongados, déficit de informações e alterações cardiovasculares, hepáticas e renais aumentam o risco de eventos adversos. Renovar uma receita sem revisar seu conteúdo pode manter um risco invisível.2

A revisão medicamentosa pode ser simples e sistemática. Uma orientação prática é pedir que a pessoa idosa leve à consulta todos os medicamentos que utiliza, inclusive os sem prescrição, ervas medicinais e associações. Esse momento permite conferir se ela sabe para que servem, entende a dose e consegue seguir os horários. Também ajuda a identificar duplicidades, interações e cascata iatrogênica, quando um medicamento trata o efeito adverso de outro. Sempre que possível, o esquema deve ser simplificado e adaptado à rotina. Se houver baixa visão, dificuldade cognitiva ou dependência funcional, a participação de familiar ou cuidador deve ser combinada.2

A fragilidade deve ser compreendida como uma vulnerabilidade sistêmica, associada à perda de autonomia, quedas, internações e declínio funcional. Na APS, seu manejo exige reconhecer riscos e combinar diferentes estratégias. Sahoo e colaboradores demonstraram intervenções físicas, nutricionais, farmacológicas, digitais ou por telemedicina e multicomponentes. As estratégias multicomponentes, ao integrar atividade física, nutrição, cognição, apoio social, avaliação de saúde e segurança no domicílio, foram as mais estudadas e promissoras no manejo abrangente da fragilidade.4
Figura 1: OCinco tipos de intervenções para o manejo da fragilidade. Fonte: Elaboração própria com base em Sahoo., 20264
Quedas também precisam ser investigadas ativamente. Muitas vezes, o idoso não relata a queda por medo de perder autonomia, vergonha ou por acreditar que cair faz parte da idade. Na consulta, é importante perguntar sobre quedas, quase quedas, tontura, desequilíbrio, medo de cair, medicamentos que causam sonolência ou hipotensão, alterações visuais, dor, fraqueza muscular e barreiras no domicílio. A prevenção passa por revisão medicamentosa, fortalecimento, equilíbrio, orientação familiar, segurança ambiental e acompanhamento longitudinal. Queda recorrente ou com perda funcional deve ser tratada como sinal de alerta.1,2,4

A avaliação cognitiva e emocional também deve fazer parte do cuidado. Em idosos, sintomas depressivos podem se combinar a doenças físicas e acelerar limitações funcionais. A APS deve estar atenta a mudanças de memória, humor, sono, apetite, interesse pelas atividades, autocuidado e execução de tarefas do dia a dia. O declínio cognitivo muitas vezes aparece como dificuldade para tomar medicamentos, organizar finanças ou seguir orientações. Identificar essas mudanças permite orientar a família, apoiar o cuidador e planejar um cuidado mais seguro.1,3

Na consulta da pessoa idosa, não podem faltar escuta da queixa principal, avaliação da funcionalidade, revisão das medicações, investigação de quedas, observação de fragilidade, atenção ao humor e à cognição, verificação da rede de apoio e definição de um plano possível. A APS também deve estimular o autocuidado apoiado, educar e dar suporte à família, além de reconhecer recursos comunitários. Em um cenário de consultas curtas, múltiplas demandas e rede fragmentada, a atenção à saúde da pessoa idosa precisa ser prática, humana e coordenada. O médico da APS acompanha a trajetória do paciente. Mais do que controlar doenças isoladas, o cuidado deve preservar autonomia, reduzir iatrogenias, prevenir quedas, reconhecer fragilidade e apoiar a família. Na saúde do idoso, fazer melhor significa simplificar, integrar e sustentar o cuidado.1-4

Referências:

  1. Distrito Federal. Secretaria de Estado de Saúde. Subsecretaria de Atenção à Saúde. Comissão Permanente de Protocolos de Atenção à Saúde. Protocolo de Atenção à Saúde do Idoso. Brasília, DF: Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal; 2014.
  2. Núcleo de Telessaúde Rio Grande do Sul. Como abordar os pacientes idosos que fazem uso de medicação contínua? BVS Atenção Primária em Saúde. 30 jun. 2010.
  3. Batista SRR, Sousa ALL, Nunes BP, et al. Regular source of primary care and health services utilisation among Brazilian elderly with mental-physical multimorbidity. BMC Geriatr. 2024 May 15;24(1):430. doi: 10.1186/s12877-024-05048-4.
  4. Sahoo S, Rehman T, Ali MS, et al. Comprehensive geriatric assessment and primary care based interventions for managing frailty in older adults: An evidence map. J Frailty Aging. 2026 Feb;15(1):100104. doi: 10.1016/j.tjfa.2025.100104.